O fim do sonho americano no Oriente Médio e a volta do Talibã

 

2.261 trilhões de dólares. Esse foi o custo da aventura americana no Afeganistão desde 2001. É o que dizia o “Projeto de Custos da Guerra” do Instituto Watson da Brown University. US$ 933 bilhões foram para as operações de guerra, US$ 443 bilhões em aumentos relacionados à guerra no orçamento do Departamento de Defesa, US$ 59 bilhões em aumentos no orçamento do Departamento de Estado, e, finalmente, US$ 296 bilhões para cuidar dos veteranos do Afeganistão. Como os EUA se endividaram para ocupar o Afeganistão, cerca de US$ 530 bilhões foram para pagar os juros sobre os empréstimos de guerra.

E teve um final trágico. O sonho dos idealizadores da aventura era que os EUA iriam conseguir forjar uma democracia ocidental no Oriente Médio, com direitos humanos, liberdades civis, mulheres empoderadas e tolerância religiosa. Porém, a realidade mostrou ser apenas isso mesmo: um sonho.

A guerra mais duradoura dos EUA foi primeiro batizada de “Operação Liberdade Duradoura” (Enduring Freedom) e depois de “Operação Sentinela da Liberdade” (Freedom’s Sentinel). É irônico que agora o país caia nas mãos do grupo com menos apreço pela liberdade no mundo, possivelmente empatado com a Coreia do Norte. Isso será algo ruim, especialmente para as mulheres e homossexuais do país que, por alguns anos, conseguiram alguns tipos de liberdade e direitos.

Parte da direita está em transe, dizendo que tudo que está acontecendo é culpa do Joe Biden. Porém, ele é “apenas” o quarto presidente a lidar com essa confusão – existiram 3 antes dele. Além disso, ele praticamente seguiu o plano de retirada feito pelo seu antecessor: Donald J. Trump. Então, colocar tudo na conta do Biden é uma tremenda ignorância (para dizer o mínimo).

Agora vamos ao que Biden poderia ter feito perante esse desastre. Sim, ele poderia cancelar a retirada para salvar o futuro de milhões de afegãos. Mas isso seria justo com o seu próprio país? Após ter sido atacado e ter perdido 3 mil de seus cidadãos no 11/09, os EUA queimaram 2,261 trilhões de dólares dos pagadores de impostos americanos nessa aventura. É muito fácil para mim, como brasileiro, defender que os EUA permaneçam no Afeganistão, afinal, não sou eu quem está pagando essa conta.

Minha visão sobre o que aconteceu é um pouco diferente do que está sendo noticiado hoje. Eu vejo que o grande derrotado não foram os EUA, mas sim o Afeganistão. Em 2019, o Washington Post lançou uma reportagem que ficou conhecida como “Afghanistan papers” – que era uma série de documentos vazados da inteligência americana. Tais documentos mostraram que os americanos não estavam conseguindo fazer progresso devido à incompetência e corrupção das autoridades afegãs. Um oficial da Marinha americana chegou a descrever a polícia local como “a instituição mais odiada do país.”

Vale a pena ficar investindo tempo e dinheiro em gente corrupta e incompetente? Como as estatais brasileiras bem provam, a resposta é obviamente “não”.

Segundo o livro Por que as Nações Fracassam: As Origens do poder, da prosperidade e da pobreza, a prosperidade das sociedades está diretamente ligada às instituições produzidas por elas, especialmente as políticas, que teriam capacidade de moldar as demais. Outro ponto do livro é que a prosperidade das sociedades está ligada à redução do poder político de grupos que coercitivamente capturam o poder em uma sociedade.

Por qualquer ponto de vista, o Talibã é a instituição política mais forte produzida pelo Afeganistão e não há a menor perspectiva no horizonte de que haverá redução de poder por parte dos barbudos. Em outras palavras, o Afeganistão fracassou – e o que estamos presenciando agora é a derrota do seu povo – especialmente das mulheres, que serão privadas de direitos devido a uma interpretação ortodoxa do islamismo.

Apenas 2.300 militares americanos morreram nesta campanha de 20 anos – uma média anual menor que a quantidade de policiais mortos no Brasil todos os anos. Agora eu pergunto: e quantos afegãos vão morrer nas mãos do Talibã? Este episódio pode ter sido um desastre para os EUA, mas, amanhã as meninas americanas continuarão indo para a escola.

*Artigo publicado originalmente por Conrado Abreu na página Liberalismo Brazuca.

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